A grande porcaria é não saber: não saber se estamos bem, mal, tristes, felizes, contentes, animados, cabisbaixos. Não tem nada pior do que alguém te perguntar se está tudo bem e você não saber responder - por mais que a pessoa não se importe. Primeiro, penso eu, deveriam definir o “tudo” da pergunta. Você está perguntando se está tudo bem na minha família, no meu trabalho ou no clube da natação? Porque, olha, sinto-lhe informar, mas se tudo - tudo mesmo - estivesse às mil maravilhas e esbanjando felicidade, alguma coisa, de fato, estaria muito triste e errada. Ninguém, absolutamente ninguém, consegue ser bom em tudo. Assim como tudo não consegue ser bom pra ninguém. Sempre tem um “mas” no meio da coisa. É inevitável. Nós nunca achamos que algo realmente tenha atingido o seu ápice: queremos mais, mais e mais. Nada nunca é suficiente. Nada nunca é o bastante. Logo, o tudo é o nada. Irônico, não? Se tudo está bem, nada está bem. E talvez ninguém tenha reparado nisso ao perguntar ou ao responder essa pergunta. Na maioria das vezes, quando perguntam como tenho passado, tenho vontade de responde-lhes exatamente isso: que tenho passado. Vivo no passado, o futuro é incerto e o presente se estagnou no tempo. E, como se não bastasse, por aqui tudo passa. Até eu mesmo já passei. Agora, ando vagando por esses corredores intermináveis com portas trancadas. Como se a vida fosse uma causa perdida e, ainda assim, eu continuo procurando por algo que não sei o que é. Então, por favor, não me faça aquela pergunta. Sim, aquela mesmo, onde eu preciso colocar um sorriso amarelo forçado no rosto e responder “estou bem, não se preocupe”. Não finja se preocupar. Poupe o seu tempo e poupe também à mim, por favor. Se quer uma resposta sincera, contente-se com o meu não saber. Não sei. E sigo não sabendo, pelo simples fato de não acontecer nada que faça com que eu saiba. Nada de bom, nada de ruim. Nada que mude o meu atual estado pra pior ou pra melhor. Nada de novo, nada de diferente, nada de inusitado. A indiferença é cruel, eu sei, mas nada se compara à incerteza de um nada. Relaxe, um dia eu devo encontrar a resposta pra tudo isso.”
Capitule. (via animicida)
Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado. Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Por exemplo: um garoto tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha. Um velho que esperou a visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha. Até um cara assoviando leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha. Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. Toda ilha é verde. Uma folha caindo é ilha cercada de vento por tudo quanto é lado. Até a lágrima é ilha, deslizando no oceano da cara.”
Oswaldo Montenegro (via segredou)